quarta-feira, 15 de julho de 2009

Rosa que brota do asfalto

Era uma madrugada com temperatura amena no verão florianopolitano de 2001. Os grilos cantavam, as corujas observavam e ratos passeavam pelas alamedas do esgoto enquanto alguns amigos aguardavam em um ponto de ônibus da capital catarinense pela condução que só chegaria dali a algumas horas.
Cada um dava seu jeito de passar o tempo e esperar o nascer do sol, que traria consigo o ônibus que levaria aquela patota de camaradas de volta à paragem distante em que estavam hospedados. Uns, de aparência multiétnica, dormiam no banco do ponto de ônibus em tributo ao índio Galdino. Outros travavam diálogos profundos, quase filosóficos, sobre a vida, de onde vimos, para onde iremos, coisas assim.
Parecia um momento banal, coisa sem importância. Mas é justamente nessas horas, aparentemente banais e sem importância, que a magia surge, inesperada, aguda, incisiva, como a dor de barriga durante o jantar com os sogros, como a flatulência no meio da sessão de cinema.
A discussão girava em torno das renúncias e escolhas que começavam a aparecer na vida daquele jovem grupo na casa dos 19, 20 anos. Tratava, mais especificamente, de um caso de um amigo mais distante, não presente naquele instante, que, depois de atingido pela cruel, implacável e venenosa flecha do Cupido, passara a negligenciar amizades antigas, entregando-se de maneira enlouquecida àquele sentimento.
Novamente: banal, sem significado importante. Afinal, isso acontece a toda hora. É comum, corriqueiro, usual. Assim como as queixas dos amigos que perdem a companhia de um camarada. Coisas da vida, nada de especial. Não havia nada que se pudesse falar daquilo que fugisse do senso comum.
Eis que então, subitamente, a dor de barriga, a flatulência, Enfim, a magia. Como se estivesse recebendo do nada uma luz tão poderosa que a limitada mente humana é incapaz de compreender, um dos amigos desfere, como se fosse um Fatality, a frase definitiva.
Com o olhar marejado, o coração tocado pela emoção ele diz: “Os amigos é (sic) tudo que a gente tem”. Naquele instante o tempo parou, o vento cessou de soprar. Tudo ficou em suspenso. A lua, até então escondida atrás das nuvens, reapareceu para ver o que acontecia.
Sob o olhar atônito dos demais companheiros, nosso amigo deixou uma lágrima escorrer pelo rosto de feições orientais. Como um elixir da vida aquela lágrima caiu suavemente numa poça do asfalto e, depois do redemoinho naquela porção de água, uma rosa brotou do cimento, num sinal da mais intensa pureza que só a verdadeira amizade pode proporcionar.
Foi inesquecível. O companheiro multiétnico que dormia acordou e, segundo dizem, até a coruja deu risada.

4 comentários:

  1. Verdade! Me lembro de cada detalhe! Aconteceu exatamente da forma que ele descreveu! Exceto pelo fato de não ter mencionado o som de "puic!" que ecoou em toda a cidade quando a lágrima se desprendeu do rosto do nosso amigo!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Amigos, contarei a verdade para esta estória, já que se trata de algo parcialmente fabricado para ser mais aceito comercialmente, para atingir a todas as classes, enfim, um conto mainstream.

    Talvez a única verdade seja o multiétnico dormindo, o mameluco cuja última ação naquela noite foi irritar profundamente o nosso Esponja lusitano dentro do bar.

    Como um sábio uma vez disse "o peido é uma declaração de amor explícita vindo do Eu interior", nada mais do que uma flatulência verbal ocorreu,uma frase entre outras quaisquer, atingindo diretamente o coração daqueles que urgiam por afeto.

    Termino dizendo o cliché que a beleza está nos olhes de quem vê. Ou ouve.

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  4. Mas que foi tudo verdade, foi. Que a temerosa liga dos aposentados e inválidos me jogue uma bengala caso haja dúvidas quanto à veracidade desta questão.

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